Abajur, sutiã, allstar…

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008 ás 18:27:52

Escrito por: Marina Maria

Cena 1 - Grande galeria do Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo. Uma tela de 106 metros exibe um vídeo sobre os diferentes aspectos da nossa língua: na música, na religião, nas festas, nas relações interpessoais. Com imagens lindas de hipnotizar e um roteiro muito bem escrito, não tem como não ficar meio bobo diante daquela tela imensa - dá para imaginar o que são 106 metros de projeção? É lindo, muito lindo, e de uma forma sutil me fez pensar sobre o quê significa ter uma língua e o quê o português significa para mim, como pessoa, como cidadã e como jornalista.

Cena 2 - Instalações com telas de TV mostram índios falando algumas das 180 línguas que existem no país. Eu sabia que no Brasil não se falava apenas português, mas não imaginava que eram tantos idiomas assim. Fiquei ali ouvindo sem entender uma palavra e pensando como isso existia onde eu morava e eu sequer sabia.

Cena 3 - Depois de assistir outro vídeo em um auditório, a tela onde estavam sendo exibidas as imagens vira, e atrás dela surge uma sala. Ao entrar no lugar, me encontrei em um planetário de palavras. Várias delas eram exibidas nas paredes e nos tetos, um ambiente mágico. Era possível ouvir diferentes atores e músicos declamando clássicos da nossa literatura. Ali, vendo as palavras-estrelas e ouvindo os textos e poemas geniais, me senti privilegiada de poder pensar e lidar com a palavra todos os dias.

Cena 4 - Em um espaço chamado “Beco das Palavras”, duas telas do tipo touchscreen mostram pedaços de palavras flutuantes. Quem quisesse podia tentar, com as mãos mesmo, encaixar cada uma das sílabas no lugar e formar a palavra. Ver as crianças maravilhadas com a possibilidade de movimentar algo numa tela com a ponta dos dedos foi muito divertido. Mais incrível ainda foi vê-las ali tão interessadas pelas palavras.

Cena 5 - Na saída do museu, vejo uma caixinha com três objetos: um abajur, um sutiã e um allstar. Objetos e palavras de origem estrangeira, que provocaram em mim um questionamento: até onde usar palavras de fora no nosso português empobrece ou desconfigura a língua?

Foi um dia de interrogações, uma oportunidade de refletir sobre como o uso da língua influencia quem somos como indivíduos. Por isso tentei, nessas breves cenas, usar nosso português para descrever em palavras o quê não consegui gravar em imagens, já que a tecnologia me sabotou hoje…


4 Respostas

  1. Alisson Villa disse:

    Que inveja de você! Queria muito ter ido na época da exposição da Clarice Lispector!

    Eu adoro tanto as palavras que ficaria muito feliz em andar ao lado delas. Gostaria de bater um bom papo com uma metáfora ou ficar um tanto gago com uma aliteração!

  2. Aline disse:

    Nossa que show! me deu vontade de conhecer!

  3. Valéria Prochnow disse:

    Amei suas ‘cenas’, Marina. Me deu saudades dessa ‘locação’. E seu ‘filme’ me lembrou Manoel:

    “Meu negócio é com a palavra. Meu negócio é descascar as palavras, se possível, até a mais lírica semente delas.”

    beijo!

  4. Cláudia Tanure disse:

    Te invejo Marina , pois estou louca para conhecer o Museu.E segundo meu mestre Júlio Pinto a lingua é muito mais do que um signo, é a representação de quem somos.

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